A música de João Bosco

"Papel marchê", "O ronco da cuíca", "Kid Cavaquinho", "Bala com bala", "Memória da pele", "Latin lover".

Lia Machado Alvim (MÚSICAS) | PEDRO NAKANO (TEXTO) 09/04/09 21:59 - Atualizado em 09/04/09 21:59

O cantor, compositor e violonista mineiro João Bosco. (Divulgação)

Em março de 1972, quem foi à banca comprar o Pasquim, também recebeu um compacto simples como presente. No lado A, Tom Jobim apresentava a primeira gravação de "Águas de março". Muito provável que ao fim daqueles quase quatro minutos de encantamento, a paixão por Jobim estivesse consolidada diante da bossa que fechava o verão. Não tão provável, era ter coragem ou razão para virar o disquinho e encarar o que vinha pela frente. Quem o fez se deu bem, e ficou extasiado com o que encontrou. Lá estava o então desconhecido João Bosco com uma parceria com Aldir Blanc, “Agnus sei”.

Sobre João e sua música, o cantor e compositor Sérgio Ricardo escreveu: “Sua melodia, seu ritmo, sua harmonia, seu senso de arranjo, ultrapassam os níveis aceitáveis pelos mestres. Seu violão é eletrizante, e suas levadas antológicas por descreverem o ritmo brasileiro "nunca dantes navegados”... Na forma final, ao juntar todos estes valores num palco, é a explosão de um verdadeiro gênio musical da raça... Ao ouvi-lo, da gosto de ser brasileiro.”

Vários artistas brasileiros interpretaram as músicas de João Bosco e alguns deles as lançaram antes mesmo dele. Elis Regina, por exemplo, gravou em 1971, para o LP Ela, a música “Bala com bala”. A intérprete também cantou outras composições de João Bosco como “Buguiné dodói”, “Caça à raposa”, “Comadre” e “Corsário”.

A importância de João Bosco no cenário da música brasileira se consolidou ainda mais quando o produtor musical, professor e compositor Almir Chediak, organizou uma série dedicada a ele. Série que antes já havia reverenciado a obra de Gilberto Gil, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Chico Buarque, João Donato e outros. Quarenta e seis músicas, interpretadas por mais de 50 artistas, fizeram parte do Songbook João Bosco, lançado em 2003.

Entre os destaques da série, a interpretação de Beth Carvalho para o samba "Kid Cavaquinho", que fazia parte do repertório do segundo LP de João, Caça a raposa, de 1975. Vale lembrar também de Luiz Melodia com “Latin lover”, lançada inicialmente por João no LP Galos de briga, de 1976. E ainda, Zizi Possi com “Quando o amor acontece”, Gilberto Gil com “Odile, odilá” e Djavan com “Desenho de giz”.

Novos nomes também recorreram às composições de João Bosco e Aldir Blanc. Em seu CD de estreia, a cantora Céu emprestou todo sua malemolência ao samba “O ronco da cuíca”.

João Bosco é um artista que sempre se voltou às raízes afro-brasileiras, que entendeu os fundamentos do sambas, redesenhando-os com liberdade e improvisos, dando assim, novos horizontes do que podia ser feito na MPB. Como bem lembrou o jornalista Luis Antônio Giron, João Bosco nunca aceitou a tradição com candura ou ingenuidade, pelo contrário, sua arte foi rasurá-la.

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