Estação Primeira

Elis Regina, Alcione, Nelson Cavaquinho, Cartola, Tom Jobim e outros cantam umas das mais queridas escolas de samba, a Mangueira

Adriana Braga 07/02/13 14:00 - Atualizado em 26/02/14 20:57

Cartola (e.), Nelson Cavaquinho e Juvenal durante desfile da Estação Primeira de Mangueira. (Reprodução)

A homenageada é a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, mas não se tratam de sambas-enredo; as músicas escolhidas são canções escritas em várias épocas pelos grandes compositores da Escola e por aqueles que gostam da "Verde e Rosa".

No DVD Estação Derradeira (dir. Roberto Oliveira, 2005), Chico Buarque fala de sua ligação com a Mangueira. Desde criança foi a Escola que ele escolheu para torcer porque, para quem gosta e conhece o samba, "a Mangueira é sempre citada, é a capital do samba mesmo. A impressão que se tem é que tudo começou aqui".

Em meados dos anos 1920, Carlos Cachaça, Cartola, Saturnino, Arturzinho, Zé Espinguela, Maçu e alguns outros rapazes criaram o Bloco dos Arengueiros, que, como o nome sugere, reunia aqueles que eram bons de samba e de briga. Os Arengueiros são a origem da Estação Primeira de Mangueira. Como um bloco de carnaval organizado, a Mangueira foi a segunda escola de samba a ser criada – a primeira é a Deixa Falar, que depois daria origem à União do Estácio de Sá. O jornalista e pesquisador Sérgio Cabral, por meio de um papel timbrado da Escola, prova que a data de sua fundação é abril de 1929, embora outras fontes digam que o ano é o de 1928.

A estação de Mangueira era a primeira parada para os trens que saíam de Francisco de Sá ou de Barão de Mauá; por isso o nome de Estação Primeira sugerido por Cartola para a escola de samba, assim como suas cores, verde e rosa.

Como diz a canção "Sala de recepção", do próprio Cartola – "temos orgulho de sermos os primeiros campeões" –, a Mangueira foi a primeira vencedora dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, criado em 1932, pelo jornalista esportivo Mário Filho, o mesmo que dá nome ao Maracanã.

Além de Cartola, que homenageou a Mangueira em várias de suas canções, outros autores cantaram a Estação Primeira, alguns deles integrantes de sua ala de compositores, como Nelson Cavaquinho (1911-1986), Nelson Sargento e Padeirinho (1927-1997), este representado por "A mais querida", na voz de Leci Brandão.

Nelson Cavaquinho é o autor de canções como "Luz negra" e "A flor e o espinho" (com Guilherme de Brito). Aqui ele canta "A Mangueira me chama" e "Sempre Mangueira", e assina também "Folhas secas", na interpretação perfeita de Elis Regina. Neste 2011, ano em que se comemora seu centenário de nascimento, Nelson Cavaquinho é o tema da Mangueira na avenida.

Prestes a completar 87 anos, Nelson Sargento é um dos poucos da época de Cartola e Carlos Cachaça que ainda integra a Velha Guarda da escola – um outro nome que ainda dança pela Mangueira é Hégio Laurindo da Silva, o Delegado, mestre-sala, de 89 anos. Autor de "Agoniza mais não morre", Sargento canta "Eu sou Mangueira desde que nasci" em Mangueira, divina e maravilhosa.

Outros compositores que não eram ligados diretamente à Escola também cantaram sua admiração pela Estação Primeira, como Assis Valente (1911-1958), autor de "Mangueira" (em parceria com Zequinha Reis), que foi gravado pela primeira vez em 1935 pelo Bando da Lua.

Herivelto Martins (1912-1992) escreveu "Saudosa Mangueira", aqui em uma gravação de Clementina de Jesus, e "Lá em Mangueira", assinada com Heitor dos Prazeres (1898-1966) e gravada em 1942 pelo Trio de Ouro (Herivelto, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas).

Milton de Oliveira (1916-1986) é o autor da famosa "Não tenho lágrimas", que teve mais de 50 gravações, uma delas realizada por Nat King Cole. Oliveira também compôs vários sucessos de Carnaval, como "Fala Mangueira", parceria com Mirabeau (1924-1991) que batizou um disco de 1968 com Odete Amaral, Cartola, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça. Mas, a gravação escolhida para esta playlist é a de Ângela Maria, datada de 1956.

O samba "Os meninos da Mangueira", escrito por Rildo Hora e Sérgio Cabral e registrado por Sandra de Sá, faz reverências a nomes já citados aqui (Cartola, Carlos Cachaça, Delegado e Padeirinho), homenageando, assim, a Velha e a Nova Guarda da Escola.

O poeta e produtor musical Herminio Bello de Carvalho é um famoso mangueirense. Ele é o autor dos versos de "Chão de esmeraldas", que Chico Buarque musicou. Para Chico esta é uma parceria rara, já que ele sempre é o letrista das melodias criadas por outros compositores. "Chão de esmeraldas", de 1997, é um agradecimento à homenagem que a Mangueira lhe fez no Carnaval de 1998, quando desfilou o enredo campeão, "Chico Buarque da Mangueira".

Herminio Bello de Carvalho também é o responsável pelo portelense Paulinho da Viola ser o coautor do clássico "Sei lá Mangueira", escrito pela dupla em 1968. Dois anos depois, Paulinho se redimiu com a sua escola ao compor "Foi um rio que passou em minha vida".

A gravação escolhida de "Sei lá Mangueira" está em um pot-pourri cantado pelo próprio Paulinho, Chico Buarque e Caetano Veloso, que inclui "Exaltação à Mangueira", de Aloísio Augusto da Costa e Enéas Brites da Silva – um samba de quadra, gravado inúmeras vezes e que todo ano serve de "esquenta" para a Escola entrar na avenida –, e "Mundo de zinco", de outros dois compositores da música brasileira: Nássara (1910-1996) e Wilson Batista (1913-1968).

Esse pot-pourri faz parte do disco No tom da Mangueira, gravado em 1991 para arrecadar fundos para o desfile de 1992, que trazia Tom Jobim como tema. A música composta por Tom em homenagem à escola foi "Piano na Mangueira" – com letra de Chico Buarque –, também incluída no repertório de Antônio Brasileiro, CD lançado em 1994, poucos dias antes da morte do maestro.

Todo mundo te conhece ao longe
Pelo som dos seus tamborins
E o rufar do seu tambor
Chegou ô, ô, ô, ô
A Mangueira chegou

(Exaltação à Mangueira)

Repertório*:

01. Sala de recepção (Cartola), por Cartola (1976)
02. Folhas secas (Nelson Cavaquinho), por Elis Regina (1973)
03. Pot-pourri:  A Mangueira me chama (Bernardo de Almeida Soares, José Ribeiro de Souza e Nelson Cavaquinho) e Sempre Mangueira (Geraldo Queiroz e Nelson Cavaquinho), por Nelson Cavaquinho (1968) 
04. Saudosa Mangueira (Herivelto Martins), por Clementina de Jesus (1968)
05. Fala Mangueira (Milton de Oliveira e Mirabeau), por Ângela Maria (1956)
06. Mangueira (Assis Valente e Zequinha Reis), por Bando da Lua (1935)
07. Mangueira, divina e maravilhosa (Nelson Sargento), por Nelson Sargento (1989)
08. Chão de esmeraldas (Chico Buarque e Herminio Bello de Carvalho), por Alcione (1999)
09. Lá em Mangueira (Heitor dos Prazeres e Herivelto Martins), por Trio de Ouro (1942)
10. A mais querida (Padeirinho), por Leci Brandão (1991)
11. Os meninos da Mangueira (Rildo Hora e Sérgio Cabral), por Sandra de Sá (1991)
12. Pot-pourri: Exaltação à Mangueira (Aloísio Augusto da Costa e Enéas Brites da Silva), Sei lá Mangueira (Herminio Bello de Carvalho e Paulinho da Viola) e Mundo de zinco (Nássara e Wilson Batista), por Chico Buarque, Caetano Veloso e Paulinho da Viola (1991)
13. Piano na Mangueira (Tom Jobim e Chico Buarque), por Tom Jobim (1994)

* A data citada em cada música é o ano da gravação.

O cmais+ é o portal de conteúdo da Cultura e reúne os canais TV Cultura, UnivespTV, MultiCultura, TV Rá-Tim-Bum! e as rádios Cultura Brasil e Cultura FM.

Visite o cmais+ e navegue por nossos conteúdos.