Falando alto, pra quem quiser entender

Seleção traz canções que ilustram o cenário político e social brasileiro antes, durante e depois do Golpe Militar de 1964

Laura Mayumi e Eduardo Weber 28/03/14 17:45 - Atualizado em 28/03/14 18:52

Chico Buarque de Hollanda, que marca presença na seleção musical com duas faixas: 'Apesar de você', lançada em compacto simples em 1970, e 'Vai passar', parceria com Francis Hime de seu LP de 1984 (Reprodução)

Em 1962, em meio à luta pela reforma de bases que ganhava corpo no governo de João Goulart, foi criado o Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes, um pólo de agitação cultural formado por estudantes e intelectuais de esquerda. Uma das produções do CPC foi o disco O povo canta, contendo cinco canções compostas por Carlos Lyra, Chico de Assis e Billy Blanco. Uma delas era a "Canção do Subdesenvolvido", irreverente crítica à dependência cultural, política e econômica do Brasil desde o seu descobrimento. A música fez enorme sucesso entre parte dos estudantes da época, sendo censurada depois do golpe de 64.

"Canção do subdesenvolvido"
(Carlos Lyra / Chico de Assis)
Conjunto do CPC da UNE

O protesto e a crítica social estavam presentes em todos os segmentos da arte: cinema, teatro, artes visuais, literatura, música. Urbana e rural. Burguesa ou operária. Os exemplos são muitos, como o "Lamento da lavadeira".

"Lamento da lavadeira"
(Monsueto Menezes / João Vieira Filho / Nilo Chagas)
Virgínia Rosa

João do Vale certa vez foi contratado por um "coroné" para animar a festa dos colonos de sua terra. A certa altura, de tanto cantar a mesma música, o "coroné" o chamou e disse: "Não aguento mais ouvir 'Peba na Pimenta'. Não tem outra música, não?" João do Vale emendou: "Mas plantar pra dividir, não faço mais isso não". O "coroné", então, sussurrou: "Canta aí 'Peba na Pimenta'".

"Sina de caboclo"
(João do Vale / J. B. de Aquino)
Nara Leão

Segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1968, "Pra não dizer que não falei das flores" teve sua execução proibida durante anos, após tornar-se um hino de resistência do movimento civil e estudantil que fazia oposição à ditadura militar.

"Pra não dizer que não falei das flores"
(Geraldo Vandré)
Geraldo Vandré

O exílio foi o destino de muitos brasileiros após 1964. Intelectuais, profissionais liberais e artistas. Dois deles partiram para Inglaterra: Gilberto Gil e Caetano Veloso. Para Caetano, Roberto Carlos compôs e gravou "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos".

"Debaixo dos caracóis dos seus cabelos"
(Roberto Carlos / Erasmo Carlos)
Roberto Carlos

Composta em 1970 por Chico Buarque, "Apesar de Você" foi censurada em 1971. A partir daí, o artista foi alvo dos censores até o fim do regime, o que o levou a criar os pseudônimos Julinho da Adelaide e Leonel Paiva.

"Apesar de você"
(Chico Buarque)
Chico Buarque

Do outro lado da resistência, a publicidade do regime militar aproveitava canções como "Eu te amo meu Brasil", de Dom e Ravel, um grande sucesso do conjunto de rock Os Incríveis.

"Eu te amo meu Brasil"
(Dom / Ravel)
Os Incríveis

"Comportamento geral" é uma das muitas canções de Gonzaguinha censuradas durante a ditadura. Foi gravada no primeiro LP do compositor, intitulado Luiz Gonzaga Junior e lançado em 1972. Depois do lançamento, a música foi censurada e o LP recolhido das lojas.

"Comportamento geral"
(Gonzaguinha)
Gonzaguinha

A cobrança de uma posição política era constante. O cineasta Cacá Diegues, em 1978, cunhou a expressão "patrulha ideológica", ou seja, aqueles que têm como princípio impor seus ideais aos outros. Ivan Lins, por exemplo, foi muito cobrado pela música "O amor é o meu país", considerada "ufanista".

"O amor é o meu país"
(Ivan Lins / Ronaldo Monteiro de Souza)
Ivan Lins

"Uma vida só", de Odair José, foi outra canção censurada pela ditadura. Conhecida popularmente pelo seu refrão "pare de tomar a pílula", a canção fazia oposição à distribuição de pílulas anticoncepcionais para o controle de natalidade.

"Uma vida só (pare de tomar a pílula)"
(Odair José)
Odair José

Um dos registros que mostra a barra pesada da vida brasileira do período tocou no rádio. E muito. Passou pela Censura, por descuido, para o delírio dos compositores. Por pura astúcia, os versos foram incluídos junto ao repertório que seria gravado por Agnaldo Timóteo, que nada teve a ver com a história e com o "carimbo de liberada".

"Pesadelo"
(Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro)
MPB-4

Um hino aos exilados. Em "O bêbado e a equilibrista", João Bosco e Aldir Blanc citam aqueles que partiram num rabo de foguete. Entre eles, o irmão do Henfil.

"O bêbado e a equilibrista"
(João Bosco / Aldir Blanc)
Elis Regina

Lei da anistia é a denominação popular da Lei n° 6.683, promulgada pelo presidente João Batista Figueiredo em 28 de agosto de 1979, após uma ampla mobilização social. A alegria foi geral. Para os que estavam aqui, e muito mais para os que puderam voltar.

"Tô voltando"
(Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro)
Simone

1985. Com a eleição de Tancredo Neves à Presidência da República encerra-se um ciclo da vida política brasileira. Começa outro: a sexta república. A nova república. Ela chegou como num samba-enredo.

"Vai passar"
(Francis Hime / Chico Buarque)
Chico Buarque

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