Os sambas do gringo paulista

Mitar Subotic é o Suba, compositor e produtor musical que trocou a Iugoslávia pelo Brasil. Contemporâneo, deu novos ares à vovó MPB.

Julio de Paula 24/07/10 19:39 - Atualizado em 24/07/10 19:39

Músico iugoslavo de formação erudita, Suba se tornou um dos mais importantes produtores de música popular brasileira nos anos 1990. (Rui Mendes)

Mitar Subotic é o Suba, compositor e produtor musical que trocou a Iugoslávia pelo Brasil, adotando São Paulo, sua “Blade Runner dos trópicos”. Contemporâneo, o rei do sample, deu novos ares à vovó MPB.

Pensar numa compilação em torno de Suba é assunto complexo se partirmos da ideia de que sua obra foi interrompida por sua morte prematura (1961-1999). Ainda mais difícil se pensarmos que ele próprio completou a tarefa com seu único projeto autoral editado: São Paulo confessions, álbum de 1999.

Suba esboça uma sonoridade nova a partir da exploração de texturas, que sobrevive e entra pra história. Seu maior legado é sua escola de montagem, com o que há de mais refinado na articulação de pedaços colados e repetidos.

Sua genialidade é unânime entre os intérpretes e autores que conviveram com ele durante uma década, entre 1990 e 1999. Da produção independente às grandes gravadoras, Suba imprimiu sua marca em trabalhos tão distantes quanto os de Edson Cordeiro e Arnaldo Antunes, da banda Mestre Ambrósio e o de Marina, passando por Edgard Scandurra e Taciana (com quem foi casado). Em SP confessions, Suba descobre Cibelle e tem a colaboração de João Parahyba. “Tanto tempo”, primeiro álbum internacional de Bebel Gilberto, foi sua última (e definitiva) produção.

Enquanto SP confessions bombava no resto do mundo (Madonna chegou a declarar que este era seu disco preferido), Suba buscava um selo brasileiro para editá-lo. Nesse meio tempo, em completa contradição, o gringo paulista que havia deixado a zona de guerra na fronteira sérvio-croata, teve sua vida roubada num incêndio em seu estúdio em Pinheiros.




SUBA CONFESSIONS FAIXA-A-FAIXA


01. Sonhar o real (Taciana e Mitar)
Taciana no álbum Janela dos sonhos, produzido e gravado por Suba em SP entre 1993 e 1994. Suba, que ainda assinava Mitar Subotic, toca teclados e faz a programação. 


02. Pierrot (Marina Lima)
Suba em loops e teclados na faixa-título do álbum de Marina. Co-produzido por Suba no Rio entre novembro de 1997 e maio de 1998. Contém sample de “Delicado” e piano de Antonio Adolfo.

03. Jazzy James (Scandurra)
Teclado e programação de Mitar Subotic. Primeiro disco da trilogia Benzina, de Edgard Scandurra, com envolvimento na música eletrônica. Produzido, gravado e co-mixado por Suba em São Paulo, 1996.

04. Eva e eu (Péricles Cavalcanti e Arnaldo Antunes)
Mitar Subotic toca sanfona nesta faixa e produz o álbum O silêncio, de Arnaldo Antunes, gravado em SP entre junho e julho de 1996.

05. Pé-de-calçada (Siba)
Faixa do segundo disco da banda Mestre Ambrósio. A letra de Siba vem de encontro ao gringo. O forró sai do sertão e vem pra calçada da grande cidade. Suba encontra o Brasil real que buscava. Com este álbum co-produzido e co-dirigido por Suba em SP (1998), a tradição popular brasileira poderia ganhar qualquer pista de dança do mundo.

06. Angicos (Chico Science e Lúcio Maia)
Remix de Suba para a trilha sonora de Baile perfumado, filme emblemático do movimento mangue. A gravação original é de 1996; o álbum do ano seguinte. Chico, Suba e Lampião se encontram pra fazer festa em Vênus e nos alumiar nas terras daqui.


07. Sua (Marina Lima)
Mais uma faixa (agora instrumental) do Pierrot, de Marina. Tem loops e teclados por Suba. Marina editaria outra parceria com Suba, “Lagoa Pinheiros”, no álbum póstumo Suba tributo.

08. A saída (Dinho Ouro Preto e Suba)
As bases do Clubbing, de Edson Cordeiro, supreendem. Produzido por Suba em 1997, o álbum traz sonoridades agarradas pelo gringo e que seriam retrabalhadas em seus próximos projetos. Suba toca teclados e faz as programações de todas as faixas. O loop de João Parahyba já está aí.

09. Sereia (Suba, Béco e Cibelle)
São Paulo confessions é o álbum testamento-testemunho de Suba, em que revela ter vivido vidas paralelas na cidade. Gravado a partir do encontro com seus colaboradores. Nesta faixa, a voz de Cibelle tem uma incrível base de samples.

10. Tanto tempo (Bebel Gilberto e Suba)
Faixa título do melhor álbum da cantora, co-produção de Suba. Atmosferas vocais e um sample do Zimbo Trio atestam a maestria do rei. O álbum dedicado a Suba sairia no ano seguinte à sua morte.


11. Svetlana nº 12 (Mitar Subotic)
“Sol de inverno” é o segundo álbum do violonista e produtor cultural Edson Natale (com Alex Braga, ao violino), produzido por Suba em 1992. "Svetlana nº 12" é a faixa que encerra o disco e tem Mitar Subotic ao piano. Natale, amigo de Suba, seria mais tarde o diretor do Instituto Suba.

12. Futuro primitivo 2 (Live Duet) (João Parahyba e Suba)
Um dos parceiros musicais mais próximos a Suba, Parahyba realizou toda a percussão de SP confessions. Aqui, uma gravação ao vivo de 1996 em que Suba processa o som em tempo real (afinal, ele fez escola no IRCAM, de Paris). O registro original é do álbum Suba tributo, editado pela Crammed em 2002.

13. Tranca (Suba e Taciana)
Esta compilação termina com uma faixa bônus do álbum Janela dos sonhos, de Taciana. Remix de “Me abrace forte”, a peça nos joga para ambientes distintos – do natural ao sintético extremo. O álbum ganhou edição japonesa em 1996.

 

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