Rua Bocaina, 72

Símbolo da música independente dos anos 1980, o selo Som da Gente garantiu que o mundo conhecesse trabalhos de Hermeto Pascoal, dos grupos D'Alma e Medusa, Hélio Delmiro, Banda Metalurgia e de outros.

Felipe Missali 20/04/11 18:00 - Atualizado em 20/04/11 18:00

Som da Gente - Três exemplos fonográficos do selo de Walter Santos e Teresa Souza: Hermeto Pascoal e Grupo (1982), Violão popular brasileiro contemporâneo (1985), de Marco Pereira, e Grupo Medusa (1981). (Reprodução)

Legitimar a independência no estúdio foi o objetivo por trás do sonho do casal Walter Santos e Teresa Souza, donos do Nosso Estúdio. Uma resposta séria aos autoritários “palpites” dos produtores nos anos 1980. O casal primava pela liberdade do artista em sua criação. A escolha dos instrumentos, arranjadores e duração da faixa eram prontamente atendidos para proporcionar um ambiente favorável ao músico.

Walter e Teresa participaram ativamente do período bossa-novista no Rio de Janeiro e mudaram-se para São Paulo ainda atuando como compositores e intérpretes do estilo carioca. Anos depois, a necessidade os levou à música publicitária, em que traçaram uma carreira bem-sucedida capaz de gerar conhecimento técnico e capital para criação do Nosso Estúdio. A partir dele nasceu uma pequena gravadora, o selo Som da Gente (ou “Sonho da Gente”, como costumava ser chamado).

Ao longo de 11 anos passaram pelo Nosso Estúdio, localizado à rua Bocaina, 72, no bairo paulistano de Perdizes, nomes como o de Hermeto Pascoal (gravou cinco discos importantíssimos, sendo que um, o sexto, ainda é inédito), os grupos Medusa e D'Alma, os Osvaldinhos (da Cuíca e do Acordeon), Cama de Gato, Roberto Sion e Tetê Espíndola, responsáveis pela formação do acervo de mais de 40 títulos.
 


Essa liberdade custou caro ao casal. Se por um lado o desenvolvimento estético do selo Som da Gente se tornava referência de qualidade, as vendas já não diziam o mesmo. Assim, o dinheiro do trabalho publicitário bancava os custos do estúdio.

Cientes de que a melhor resposta para o produto que desenvolviam viria do mercado internacional, o Som da Gente participou do Midem (feira de mercado musical), na França, onde fez importantes contatos que resultaram em exportações de seus artistas e discos para um mailing de mais de 600 nomes de jornalistas e críticos musicais do mundo.

Em 1988, o Som da Gente buscou ajuda do Ministério das Relações Exteriores junto à Divisão de Difusão Cultural (DDC) para arcar os custos de distribuição nos países com os quais o Brasil mantinha relações diplomáticas. Já em 1989, o Banco Bamerindus patrocinou o lançamento do selo no Estados Unidos, realizando três noites de musica brasileira em Nova York. Intitulado “The Sound of Our People”, o selo teve grande repercussão na mídia.

Nessa mesma onda, em 1983, Egberto Gismonti recomprou suas composições e lançou o selo Carmo, que responderia pela distribuição de seus próprios discos, além de agregar outros nomes, como os de Luiz Eça e André Geraissati. A sociedade do selo Carmo com o selo alemão ECM foi fundamental para sua divulgação internacional, algo que o Som da Gente havia tentado em 1985 ao criar uma segunda marca, o Somda, que abria exceções para a música vocal (embora o disco de Tetê Espíndola – Pássaros na garganta - tenha saído pelo Som da Gente).
 


O selo Somda foi inaugurado com o primoroso disco Preto no branco, de Osvaldinho da Cuíca. Instrumentista completo, com domínio dos instrumentos de percussão, apresenta neste disco samba-enredo, partido-alto, pagodes, samba romântico e por aí vai. 
 


Interessante notar que a música relevante a preservação de uma cultura minoritária, muitas vezes marginalizada, sempre foi desprezada pelas grandes gravadoras. Graças aos trabalhos de Marcus Pereira nos anos 1970, por exemplo, a cultura musical brasileira ganhou importantes registros de canções populares de todo o Brasil. Aliados ao Som da Gente nos anos 1980 e a gravadora carioca Kuarup, que sobreviveu até os anos 2000, parte da música brasileira não passou em branco na indústria fonográfica. Todas as faixas presentes nesta seleção foram extraídas dos LPs originais da época que constam na discoteca da Rádio e TV Cultura.

Essa playlist é uma homenagem ao selo Som da Gente, pelo seu trabalho de fomentação da cena instrumental nacional, que conseguiu com sucesso difundir o trabalho de músicos que não encontravam espaço naquele momento para concretizar seus trabalhos.


REPERTÓRIO

1. Melancia (Rique Pantoja), por Cama de Gato
2. Era pra ser e não foi (Hermeto Pascoal), por Hermeto Pascoal
3. Pé no chão (Chico Medori), por Grupo Medusa
4. No caminho tem piringuela (Olmir Stocker), por Olmir Stocker
5. Não aguento mais (Osvaldinho da Cuíca), por Osvaldinho da Cuíca
6. Pivete (Marco Pereira), por Marco Pereira
7. Sorriso de Samanta (Oswaldinho do Acordeon), por Oswaldinho do Acordeon
8. Emotiva n° 3 (Hélio Delmiro), por Hélio Delmiro
9. Roda gigante (Ulisses Rocha), por Grupo D’Alma
10. Impulso (Lino Simão), por Banda Metalurgia
11. Paisagem fluvial (Tetê Espíndola e Arrigo Barnabé), por Tetê Espíndola
12. Poente (Nelson Ayres), por Nelson Ayres
 

 

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