Descobrindo Tom em 78 rpm

Ouça os registros do início da carreira de Antonio Carlos Jobim, desde os tempos em que assinava os arranjos da gravadora Continental, também acompanhando os músicos ao piano.

Biancamaria Binazzi 06/12/09 00:00 - Atualizado em 06/12/09 00:00

O pianista, arranjador e compositor Tom Jobim nos anos 1950, época em que criou as músicas para a peça teatral Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes. A trilha sonora foi lançada em 1956. (Reprodução)

Esta edição especial do 78 RPM pede licença para mudar a rotação e tocar discos em alta fidelidade, do samba-canção à bossa nova.

Ouça os registros do início da carreira de Antonio Carlos Jobim, desde os tempos em que assinava os arranjos da gravadora Continental, também acompanhando os músicos ao piano.

O programa tem como ponto central o período entre 1958 e 1959, bem na transição do samba-canção para a bossa nova, do acetato para o vinil.

Entre os registros, a versão sertaneja de  "Eu não existo sem você", interpretada pela dupla Mara e Cota. "Tereza da praia", um dos primeiros sucessos de Tom Jobim, em sua gravação original de 1955, por Dick Farney e Lucio Alves, com arranjo do próprio compositor.

O início da parceria Tom e Vinícius também foi registrado em 78 r.p.m., quando o poetinha-diplomata convidou o pianista para escrever a música para a peça "Orfeu da Conceição", 1956, que mais tarde seria traduzida para o cinema, sob direção do francês Marcel Camus. Sobre o motivo Orfeu, você poderá ouvir “Frevo de Orfeu”, “O nosso amor”, e “A felicidade”, esta em versão de Agostinho dos Santos acompanhado de Tom ao piano, não lançada na época por ser considerada moderna demais.

Assista a abertura do filme Orfeu do Carnaval (1959), de Marcel Camus, em que Agostinho dos Santos canta “A felicidade”, e “Manhã de Carnaval”.




A turma do gramofone, representada por Vicente Celestino e Isaura Garcia, também presta sua homenagem a Tom Jobim em registros tardios.

Encerrando o programa, a celebre gravação de "Chega de saudade" por João Gilberto em 78 rotações. Nas palavras de Ruy Castro “Um minuto e cinqüenta e nove segundos que mudaram tudo!”.

Depois de gravada a plenos pulmões por Elizeth Cardoso e pelo conjunto Os Cariocas, todos sob palpites de João Gilberto, "Chega de saudade" (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) precisava ser gravada pelo próprio João. Como todos desconfiavam do jeito de João Gilberto interpretar, a Odeon não quis investir muito na gravação. Lançariam um disco em 78 rpm somente para testar o potencial comercial da interpretação. Tom Jobim se encarregou de simplificar o arranjo da música. No livro "Chega de saudade", Ruy Castro dedica um capítulo àquele um minuto e 59 segundos...

 
... o segundo confronto foi entre João Gilberto e os técnicos. Habituados aos cantores “normais”, que davam conta de três faixas a cada quatro horas (media de gravação no Planeta Terra), eles não entendiam aquele perfeccionismo maníaco, que estava transformando a gravação de um simples 78 rpm numa novela intermimável, tipo O direito de nascer. A agonia se prolongava há dias quando aconteceu o terceiro e pior confronto: entre João Gilberto e o próprio Tom. Tanto quanto as birras e turras com os músicos e técnicos, as queixas de João Gilberto a respeito de acordes levaram a tensão entre ambos a um ponto de corda de violino. Uma explosão a mais, de qualquer dos dois – como João Gilberto repetir de novo que Tom “não entendia nada” – significaria o fim de Chega de saudade e Bim bom.

Mas foi justamente um insulto abrangente e profundi de João Gilberto que reestabeleceu a harmonia:

- Você é brasileiro, Tom, você é preguiçoso.

Não havia como não rir – e não ir até o fim.

(in Chega de saudade: a  história e as histórias da bossa nova, de Ruy Castro, 1990)
 

 

Quem são Mara e Cota?
Descubra a verdadeira identidade da dupla caipira que lançou um único disco. O 78 rpm de 1959 tinha duas composições de Tom e Vinícius: "Eu sei que vou te amar" e "Eu não existo sem você", de Tom e Vinícius.

 
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78 RPM
Descobrindo Tom em 78 rpm

Apresentado originalmente na RCB em 6 de dezembro de 2009
Apresentação e produção: Biancamaria Binazzi

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