A feijoada e o mito apaziguador

Três especialistas discutem a importância da feijoada na cozinha brasileira, os caminhos da gastronomia e os sabores do Brasil.

Cirley Ribeiro 02/09/10 16:29 - Atualizado em 02/09/10 16:29

A empresária Mônica Freitas e o sociólogo Carlos Alberto Dória debatem a gastronomia brasileira no estúdio da Rádio Cultura Brasil. (Cleones Ribeiro / CEDOC FPA)

Almoço em família aos domingos, festa de aniversário, pausa para o cafezinho, happy hour, jantar de negócios, pagode com feijoada, roda de samba com petiscos e comidinhas de botequim...Tudo é motivo para reuniões em torno da mesa. Fundamental na cultura de um povo, a gastronomia está presente nas crônicas dos viajantes, na literatura e na música brasileira.

Não foi por acaso que a feijoada temperou os versos de Chico Buarque na canção composta em 1977 para o filme Se segura malandro. A mistura de arroz, feijão, torresmo, carne de porco, couve, farofa e laranja representa um dos pratos mais apreciados pelo brasileiro. Exagero, porém, afirmar que a feijoada representa a identidade gastronômica do país. "Seria o mesmo que dizer que o português só come bacalhau", argumenta Mônica Freitas, sócia de um restaurante de comida mediterrânea em São Paulo. Segundo ela, o patrimônio culinário brasileiro se traduz pelas diferenças regionais, pela herança dos imigrantes e pelas inovações dos chefs da cozinha internacional.

O sociólogo e ensaísta Carlos Alberto Dória - autor de vários livros sobre o assunto - opina que a feijoada é um mito essencialmente urbano. Historicamente come-se feijão em vários lugares do país e o feijão gordo é uma variação que se encontra em todas as regiões. Segundo Dória, a feijoada completa é um feijão gordo extremado, que surge no Rio de Janeiro no final do século XIX. Mas não há um consumo generalizado, apesar de se associar o prato à integração das três raças que constituem a brasilidade. O sociólogo lembra que o mito da feijoada foi inventado pelos modernistas nos anos 1920 e cita uma cena na obra Macunaíma, de Mário de Andrade, agregando a feijoada ao caráter integrador das três raças. Para Carlos Dória, também há em torno desse prato uma espécie de mito apaziguador: "Porque na medida em que a feijoada expressa a integração de raças, apaga da história o fato de que os negros foram escravos e que os índios foram massacrados. Daí a expressão e o apego tão grande do estado e do turismo a essa mitologia".

Brasileiro adora mesmo é carboidrato, contrapõe o chef e professor de gastronomia Rodrigo Libbos: arroz, feijão, macarrão, pão, farofa e batata frita."Nos restaurantes por quilo, as pessoas misturam no prato até cinco carboidratos. E em países da Europa, por exemplo, não há esse exagero", diz ele. Para Mônica Torres, isso mostra o quanto o brasileiro é conservador nos hábitos alimentares.

No debate mediado por Alexandre Ingrevallo, os três participantes discutem também as características da gastronomia em São Paulo, a contribuição dos imigrantes e a presença do azeite de oliva na dieta alimentar.

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